Qual foi a negociação política entre Al-Sadr e os Estados
Unidos?
Achcar – O movimento
de Moqtada Al Sadr aparece hoje no Iraque como o movimento legal ou, pode-se
dizer, como o movimento não clandestino mais radicalmente em oposição à presença
das tropas de ocupação. Neste sentido, é um movimento que os Estados Unidos
gostariam de poder esmagar ou, pelo menos, de obrigar a negociar um compromisso
com eles. A ofensiva contra Al Sadr foi uma tentativa de esmagá-lo, de reduzir
este movimento através da força. Al Sadr se refugiou em Najaf e Kufa, que estão
entre as principais cidades santas do Islam, reduto dos xiitas, e os Estados
Unidos não podiam, por razões políticas, ir até o fim no ataque contra ele.
Neste contexto, é que interveio o aiatolá Sistani, impondo a mediação e
promovendo o fim do conflito. Pode-se dizer que Al Sadr saiu em boas condições,
mas, ao mesmo tempo, o enfrentamento salientou a que ponto, hoje, o principal
personagem da situação iraquiana é o aiatolá Sistani. É a ele que os Estados
Unidos mais temem, pois Sistani é a autoridade espiritual mais importante para
os xiitas iraquianos e é capaz de fazer uso de algo mais perigoso que a
violência armada, porque disto os Estados Unidos não têm medo no Iraque, mas sim
da mobilização das massas. O aiatolá Sistani, em janeiro último, chamou
manifestações de massa para impor eleições diretas no Iraque, com sufrágio
universal, contra Paul Bremer, que ocupava a posição de procônsul estadunidense.
Houve manifestações gigantescas, com várias centenas de milhares de pessoas,
obrigando os Estados Unidos a recuar. Hoje, Sistani é o homem forte na situação
iraquiana, Al Sadr está numa corrente minoritária entre os xiitas: radical na
oposição à ocupação, mas, ao mesmo tempo, é um integrista; alguém que defende um
programa social medieval, reacionário, sobretudo nas questões relativas às
mulheres e em vários outros aspectos. É um integrista religioso.
O Iraque pode ser considerado hoje como um novo Vietnã?
Achcar – Isso depende
do enfoque que damos a esta questão. Evidentemente, há diferenças imensas entre
o que foi o Vietnã e o que é hoje o Iraque. Primeiro, no Iraque não existe uma
revolução em andamento, como era o caso no Vietnã; não existe uma guerra popular
da envergadura daquela que conheceu o Vietnã e é importante também dizer que as
condições geográficas dos dois países são muito diferentes. Então, se quisermos
comparar do ponto de vista militar, certamente não é possível. O Vietnã era,
militarmente, um desafio muito maior para os Estados Unidos do que é o Iraque.
Entretanto, a situação do Iraque pode ser comparada com a do Vietnã no plano
político, ou seja, naquilo que chamamos de atoleiro, esta situação em que os
Estados Unidos não conseguem ter o controle sobre o país, um país que sombra
numa certa forma de caos; um país que os Estados Unidos ocuparam com a intenção
de controlá-lo por muito tempo, mas que não conseguem controlar nem mesmo a
curto prazo. Há, então, evidentemente, um problema político gigantesco para os
Estados Unidos e, neste sentido, podemos falar em um novo Vietnã, se
considerarmos que este é o maior problema que os Estados Unidos enfrentam, do
ponto de vista imperialista, desde sua saída do Vietnã, em 1973.
A repercussão política seria pior do que o resultado militar?
Achcar – Exatamente.
Podemos comparar, nesse caso, com a guerra do Vietnã. Não é possível dizer que
os Estados Unidos foram vencidos militarmente no Vietnã, seria uma ilusão
acreditar nisso, já que eles podiam, se quisessem, apagar totalmente o Vietnã do
mapa do mundo. Mas não fizeram por razões políticas, uma vez que o golpe
político, a repercussão, teria sido enorme, e porque o movimento antiguerra nos
Estados Unidos já era muito forte. É fato que, numa época, pensaram em inundar o
norte do Vietnã rompendo os diques; cogitaram, inclusive, de utilizar armas
atômicas. Mas nos dois casos, não foram até o fim. Avaliaram que o golpe
político seria excessivamente grande. Pode-se dizer a mesma coisa, numa escala
bem mais reduzida, sobre o que ocorre hoje com os Estados Unidos no Iraque:
quanto maior é o número de vítimas, mais difícil é para eles permanecerem no
país. Eis porque este é um grande problema político para os Estados Unidos, e
porque, deste ponto de vista, podemos comparar com o Vietnã.
O senhor vê a guerra do Iraque como uma guerra de libertação
nacional?
Achcar - Deste ponto
de vista, também, a diferença entre o Iraque e o Vietnã é imensa. No Vietnã, a
resistência era um fenômeno unificado, com uma única direção política, ou seja,
uma direção representada pelo movimento comunista vietnamita que impulsionava a
luta de libertação num sentido, pode-se dizer, progressista; enquanto que no
Iraque temos uma situação totalmente diferente: uma resistência à ocupação
estadunidense muito heterogênea, na qual encontramos todos os tipos de grupos,
inclusive uma parte que é espontânea ou, digamos, local, sem organização
central; uma resistência que vai desde a corrente integralista muçulmana
reacionária, do ponto de vista de programa social e da concepção do poder
político, até correntes nacionalistas, ou seja, correntes basistas, que são os
saudosistas de Saddam Hussein. Há, portanto, uma grande diversidade de correntes
e que, podemos dizer, está longe do Vietnã do ponto de vista de conteúdo
progressista. Se tomarmos as forças hoje dominantes no Iraque, e que estão em
oposição aos Estados Unidos, não podemos dizer que sejam progressistas do ponto
de vista social ou programático; são forças nacionalistas ou mesmo reacionárias.
O senhor vê a possibilidade dos Estados Unidos se retirarem do
Iraque a curto ou médio prazo?
Achcar – Sim. Hoje é
possível dizer que desde algo entre seis e dez meses nós temos entrado numa fase
de atoleiro, de complicação da situação no Iraque de tal proporção que o recuo
dos Estados Unidos aparece como uma possibilidade. No entanto, é preciso
atenção. Existe uma outra diferença muito grande entre o Vietnã e o Iraque: o
Iraque é muito mais importante para os Estados Unidos do que foi o Vietnã em
outros tempos. O Vietnã foi um jogo estratégico durante a Guerra Fria, de medo
de um contágio da revolução, mas era, apesar disso, por sua localização e no
plano econômico, muito menos importante que a região do Golfo, onde está o
Iraque. O Vietnã não era um país importante, do ponto de vista econômico, para
os Estados Unidos, enquanto que o Iraque é um grande produtor de petróleo. No
Iraque estão 12% das reservas mundiais de petróleo, e numa região onde
encontram-se dois-terços da reserva mundial de petróleo. No Iraque, o que está
em jogo é algo muito maior. Seria preciso que a situação política e militar se
tornasse extremamente difícil e que houvesse, sobretudo, uma forte pressão dos
movimentos antiguerra no mundo todo e inclusive no interior dos Estados Unidos.
Isto seria o mais importante, para impor a retirada de tropas dos Estados Unidos
do Iraque.
Entretanto, parece haver um recuo do movimento antiguerra no
mundo inteiro. Qual é a sua opinião?
Achcar – Houve, de
fato, depois do início da invasão e da tomada de Bagdá, um recuo do movimento
antiguerra e de sua mobilização. Porquê? Há vários fatores que podem explicar
isto. Por um lado, houve uma certa desmoralização porque no movimento antiguerra
tivemos a ilusão de que seria possível impedir a guerra. Só um movimento
antiguerra muito forte dentro dos Estados Unidos teria conseguido impedir que a
guerra começasse. Infelizmente, o prazo foi curto demais para que o movimento
tivesse força suficiente para isto. Mas, de qualquer maneira, é muito importante
o que aconteceu. Comparando com o Vietnã, pela primeira vez, tivemos um
movimento de grande amplitude no interior dos Estados Unidos e no mundo antes da
guerra. O movimento antiguerra do tempo do Vietnã foi construído ao longo da
guerra. Assim, quando a guerra começou, houve uma certa desmoralização. Em
seguida, houve a tentativa de uma campanha da mídia internacional e da mídia
americana de fazer crer que a população iraquiana apoiava a ocupação de seu
país. Foi preciso algum tempo para que essa imagem se modificasse, foi preciso
que as pessoas vissem a resistência e, por diferentes aspectos, comprovassem que
a população iraquiana não quer esta ocupação. Num segundo momento, acreditou-se
que a resistência iraquiana seria mais eficaz do que o movimento contra a
guerra. E, por fim, os Estados Unidos estão em período eleitoral, onde
tradicionalmente, principalmente nos últimos meses, tudo se volta à campanha
eleitoral. Todos estes fatores estiveram presentes. Apesar disso tudo, podemos
dizer que o movimento está longe de estar morto. Vimos, recentemente, grandes
manifestações em vários países europeus – Itália, Grã-Bretanha e mesmo em Paris
– por ocasião da visita de Bush à Europa; vimos a dimensão antiguerra nas
manifestações contra a convenção do Partido Republicano. Dentro em pouco,
teremos o Fórum Social Europeu, quando certamente haverá uma grande manifestação
antiguerra. Agora, com o reinício das aulas nas universidades estadunidenses,
pode-se sentir a renovação do movimento antiguerra. Então, deste ponto de vista,
continuo otimista sobre a retomada do movimento antiguerra proximamente.